Do berço a urna funerária, passando pelas mais variadas peças utilitárias, a madeira é matéria-prima importante para o artesanato capixaba.
Sempre cortada na lua certa - minguante ou nova - para não 'dar bicho', ela é empregada na criação de instrumentos da pequena indústria doméstica , como os monjolos, ou pilões d'água, destinados a pilar café, milho ou arroz, na montagem de engenhocas e moendas de cana e na construção de carros de boi, ainda um meio de transportes de carga freqüente na região rural. Para estes, é rigorosa a seleção de madeiras, determinada pela parte ou peça do carro: buscam-se espécies resistentes como a sucupira e o roxinho para fazer as 'mesas' dos carros, e leves como o bico-de-pato para cortar as cangas. Outras madeiras usadas nos carros são o óleo-vermelho, a garapa e o cavíuna, a peroba e o ipê-tabaco. Carroças e carrinhos de mão são igualmente produzidos artesanalmente. De madeira, ainda, são as peças ligadas à produção da farinha: cochos, rodas e prensas.
As canoas e botes podem ser construídos a partir da junção de tábuas, ou pela escavação de um tronco inteiriço , usando-se para tanto o machado e as enxós. Todos os municípios litorâneos registram a produção de embarcações.
Móveis, e especialmente móveis para crianças, são outra aplicação artesanal da madeira bastante usual. Para sua produção usam-se os instrumentos comuns de carpintaria - serra, machado, enxó, plaina - aos quais se acrescentam diversos outros, de invenção dos artesãos, ou pôr eles adaptados, da gilete ao simples fragmento de vidro, para lixar. Os entalhadores e escultores em madeira recorrem a instrumental mais especializado, que inclui o buril, o formão, serrinhas, facas, goivas, canivetes, além de lixas e limas. O acabamento das obras é obtido seja com vernizes industrializados seja com creosoto, óleo de linhaça, goma-laca ou até com recursos imprevistos - tais como o pó de vela de filtro, para dar polimento à madeira.
Para a criação de gaiolas utilizam-se furador e compasso, sendo o primeiro freqüentemente representado pôr vergalhão de ferro ou arame grossoque, aquecido ao rubro, se introduz nas ripas da gaiola, perfurando-as. Quanto às madeiras preferidas pêlos gaioleiro, anotam-se a embaúba, cujo talos muito leves tem peculiar cor cinza-parda, bem como o cedro, o jacarandá e o pinho, este aproveitado de restos de embalagens e caixotes. O gaioleiro cria seus modelos, ou se inspira na tradição local. Mas há os que copiam todos os formatos apresentados para atender encomendas.
Nas gaiolas a madeira é pintada ou não, a decisão dada apenas pôr motivos estéticos. É freqüente o emprego de taquara ou bambu para a produção de gaiolas, assim como o uso de arame.
Capítulo importante na produção artesanal em madeira são os instrumentos musicais: os grandes tambores, fechados com couro esticado, são utilizados nas festas populares de São Benedito, no jongo e no caxambu, nas bandas de congos e outros. Para violões, violas e cavaquinhos, variam as madeiras empregadas: cada parte do instrumento exige determinada espécie. Entre as mais freqüentemente usadas estão o cedro, o pinho, a caviúna e o jacarandá. As rabecas obedecem à mesma seleção de madeiras, empregando-se às vezes crina de cavalo nas cordas do arco.
Menção especial, entre os instrumentos, merece a cassaca ( também denominada casaca, casaco, canzaco, canzá caracaxá, reco-reco ou reque-reque ) , instrumentos das bandas de Congo. É um cilindro de madeira de 50 a 70cm, que tem na parte superior um rosto humano esculpido, pôr onde se segura o instrumento.
As flautas são feitas de taquara ou bambu, ou ainda pelo aproveitamento de canos plásticos. Os artesãos usam, em sua criação, canivete , faca, arame ou vergalhão aquecido para perfuração. Outros instrumentos feitos de madeira sãos os tamborins e pandeiros e, curiosamente, sanfonas, onde a caixa é cortada em madeira leve. Papelão , plástico, cera de abelha, cola, alumínio e arame são também utilizados na confecção de sanfonas.
As gamelas, cavadas a enxó, e os pilões de socar café, milho e arroz, estão entre os objetos utilitários mais corretamente produzidos. Encontram-se também, com muita freqüência, os jarros, fruteira, cinzeiros, farinheiras, almofarizes e colheres de pau. Entre os adornos são produzidos crucifixos e terços, preferencialmente em jacarandá e, casas, castelos, igrejas e construções diversas, com palitos de sorvetes. Quanto aos tamancos, embora já produzidos industrialmente, ainda o são pôr processos artesanais.
Estão no mesmo caso os pios de caça de Cachoeiro de Itapemirim, pôr exemplo, dos quais há 35 tipos, e os entalhes decorativos em jacarandá.
Entalhadores e escultores observam os mesmos cuidados no trato com a madeira: cortada verde, é posta a secar na sombra e só depois 'trabalhada'; aplainada, é riscada para orientar o trabalho, ou diretamente entalhada com facas, goiva e canivete.
Entalhadores e escultores distinguem-se dos 'carapinas' : estes são artífices que criam porteiras, portas, janelas, e casas inteiras, ou constróem carros de boi e carroças para carga; aqueles produzem imagens de santos, pessoas ou animais, além de entalhes em coronhas de espingardas e revólveres. Entre os escultores em madeira destacam-se os criadores de presépios, apesar de pouco numerosos. Há grande ocorrência de miniaturas e produtores de brinquedos, criando, na madeira, carrinhos, bonecos, piões, ioiôs, e miniaturas de tratores, engenhocas, pilões, caminhões e carros de boi. São raros os artesãos de ex-votos e xilogravuras. Os bonecos destinados ao teatro de mamulengos aparecem como criações de um único artesão.
É grande a variedade de madeiras utilizadas pelos artesãos capixabas encontradas no próprio estado: amarelo ( cacunda amarela ) , barbatimão, bico-de-pato, cerejeira, cedro, caroba, canela ( loura e parda ), caviúna ( ou cabiúna ), esperta, farinha seca, folha-da-serra, garapa, gameleira, guaricica, guaribu ( rajado e preto ) , imbuía, ipê, jacarandá ) do qual se utilizam a madeira e as raízes), jequitibá, oiticica, óleo-vermelho, e óleo pardo, orelha-de-onça, pau-sangue, peroba, paraju, sucupira, roxinho, tambor e vinhático.
Foram cadastrados 156 artesãos que trabalham com madeira representando 10% do total, com predominância absoluta de homens, registrando-se a presença de apenas cinco mulheres. A maioria reside em zona urbana. Menos da metade dos cadastrados adquire, pôr compra direta, o material de seu trabalho; cerca de um terço obtém diretamente a matéria-prima dosa recursos naturais próximos à residência. Uma pequena parcela vai buscá-la em outras localidades .
Na maioria, os artesãos aprenderam a trabalhar pôr si mesmos. O artesanato em madeira ;e um trabalho predominantemente individual. Apenas 23% conseguem manter a família com a a venda do produto artesanal.
Os artesãos, na imensa maioria, não saem de sua localidade para a venda de peças, que é preferentemente realizada na própria residência.
É em dezembro, janeiro e julho, que se dá a maior vendagem do artesanato em madeira, embora haja procura dos produtos durante o ano inteiro. A maior concentração de artesãos em madeira está nos municípios de Alegre e Cachoeiro de Itapemirim.
Fonte: Atlas Folclórico do Brasil
INSTITUTO Nacional do Folclore. Atlas Folclórico do Brasil - Espírito Santo.
Rio de Janeiro, Funarte, 1982. 93 p. il.