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As rendas são produzidas com algodão fiado pelas próprias rendeiras, ou com as linhas industrializadas normalmente usadas para costura. As rendeiras conservam seu instrumental tradicional: os piques, bilros e almofadas.

Chamam-se piques ou cartões perfurados que indicam o desenho da renda; são copiados de riscos tradicionais , mantidos na família, e é freqüente a troca de piques entre amigas e vizinhas. As rendeiras os prendem sobre as almofadas, feitas de pano, estofadas com capim ou palha de bananeira, são cilíndricas, as vezes chamadas 'almofadas de rolo' . Medem, geralmente, 40cm de altura pôr 50cm de comprimento.

Os piques são presos à almofada pôr alfinetes e, principalmente, permitem que se prendam os bilros; em cada alfinete são enrolados os fios de linha, presos aos bilros. Estes ficam pendentes dos alfinetes, eqüidistantes e emparelhados de dois a dois. O número de alfinetes deve corresponder ao número de furos do trecho do pique que está sendo trabalhado.

Os bilros são como pequenos fusos. A linha neles enrolada vai-se desenrolando à medida que a renda é trançada. São confeccionadas em madeira macia, cortados a canivete; ou em madeira com a 'cabeça' feita de coco, fruto de palmeiras nativas, sendo delas a mais conhecida a iri ou airi. O coco é perfurado com uma ponta de ferro aquecido para permitir o encaixe da haste de madeira. A quantidade de bilros aplicada depende da renda que se está criando: um 'bico' exige muito menor quantidade do que a renda propriamente dita, ou do que as 'aplicações' , quadrados, losangos ou triângulos de renda, preparados para enriquecer peças de roupa. 'Trocando os bilros' , isto é, entrelaçando os fios que estão presos aos bilros, a rendeira conduz seu trabalho. Feita a renda ou parte dela, chega o momento de 'levantar o pique' , ou seja, retirar os alfinetes presos à almofada. A renda se destaca, então, e recomeça o trabalho de reposição do pique. Diz-se 'levantar a renda' para retirada final do pique, depois de pronta toda a peça que se deseja produzir.

Os pontos tradicionais de renda recebem nomes especiais: cocadinha, margarida, mata-fome, ziguezague, mataxim, não-me-deixes, aranha, corações, pano aberto, pano fechado, trocadinho, abacaxis., trancinha. As linhas industrializadas variam de espessura, sendo empregadas tanto as de n.º 40 ( mais finas ) quase que exclusivamente na cor branca.

Menos freqüente, o rendendê é trabalho que emprega o tecido chamado etamine como trama básica. Sobre a etamine são feitos, com agulha, bordados. Os desenhos assim obtidos são regulares e geométricos.

Manejando a naveta - instrumento de madeira, osso, plástico ou taquara, de ponta fina, que conduz o fio - produz-se a rede de filé, um trabalho que aparece em maior proporção. Sobre estas criam-se, com agulha, desenhos geométricos e figurativos, que preenchem em parte as malhas da rede básica.

A trama básica para os trabalhos de crivo e labirinto são os fios dos tecidos sobre os quais são feitos. O crivo e labirinto adornam blusas, roupas interiores de mulheres e roupa de cama e mesa. O tecido é desfiado tanto horizontal quanto verticalmente, formando-se uma grade. O desfiado é, a seguir, firmado com bastidor de madeira, e os fios trabalhados com agulha e linha comuns, de modo que o gradeado permaneça, estável, aberto e disciplinado.

O macramê, trabalho que tomou o nome ao fio com o qual era originalmente produzido, é um trançado, firmado pôr meio de nós e suspenso pôr uma barra horizontal, superior. Usam-se para ele, atualmente cordas e cordões de várias espessuras e procedências, especialmente para a criação de panneau - adorno doméstico para decoração de paredes - e sacolas e bolsas. É freqüente a utilização de cânhamo no macramê.

A 'brolha' - chamada também 'broia' ou 'abrolha' - segue a mesma técnica do macramê. É o acabamento preferido das donas de casa caprichosas, para seus panos de pratos e toalhas e toalhas de mão. A brolha consiste em desfiar, no sentido vertical, a ponta dos tecidos - geralmente saco de algodão para farinha de trigo - obtendo franjas que a seguir, são trançadas, formando desenhos geométricos ou figurativos. Os nós nas brolhas, seguram e separam o trançados, como no macramê, permitindo firmar os fios e mantê-los na posição desejada para obter o desenho. É freqüente que as toalhas ornadas de brolhas sejam ainda embelezadas pela 'marca' ou 'ponto de cruz' , ponto de bordado de gosto nitidamente popular, que permite reproduzir, no fio do tecido, cenas da vida cotidiana, bem como flores, pássaros ou letras - as iniciais dos donos da casa, pôr exemplo. Outros pontos de bordado, de menor ocorrência, são a casa ( ou ninho ) de abelha, o rococó, o recheliê e o ponto cheio, todos executados apenas com agulha e bastidor.

A máquina - nas velhas máquinas de costura providas de bastidor - bordam-se lençóis, toalhas e peças de roupas. A criatividade que esse instrumento permite é muito grande, ensejando à bordadeira executar seus próprios riscos e desenhos, sem qualquer padronização.

O nhanduti, outra formulação dos trançados com linha, está sendo produzido no Espírito Santo de maneira significativa. Exige, para sua execução, pequena tábua, em geral cortado no formato de um losango, guarnecida com pregos na superfície e em toda a volta. O fio - linha de algodão, branca ou de cores - é passado pôr esses pregos; uma vez pronto e esticado, o trabalho reproduz o modelo estabelecido pelos pregos.

A frivolitê é trabalho que, pelo aspecto, se aproxima da renda. É confeccionada, entretanto, com naveta, de pequena dimensão e ponta muito fina. Trabalho semelhante, com técnica diferente, é a grampada: emprega-se o grampo de metal, em formato de U, que segura os coques femininos. A linha se entrelaça de uma para outra haste do grampo, formando no centro, urdidura pouco complexa. Ambas, frivolitê e grampada, são utilizada no arremate e embelezamento de trabalhos de costura. Chamam-se também à grampada 'crochê de grampo'.

O crochê e o tricô representam o grosso da produção artesanal feminina capixaba. Ambos são melhor vendidos no tempo de Natal ou nos meses frios. As agulhas próprias e as linhas para tecer são industrializadas. Em casos raros, as artesãs ainda criam as agulhas com cipó, arame madeira ou restos de alumínio. Entre os fios empregados para o crochê, além das linhas especificamente utilizadas - linha Cléa, Mercê Crochê, etc., - merecem referência o barbante, a ráfia e o fio urso. Figuram entre os objetos mais freqüentemente tecidos em crochê, além das peças de roupa, especialmente as de crianças, as almofadas, colchas, centros e toalhas de mesa, redes para dormir e suas 'varandas', meias, bicos para arremate e xales. O tecido de tricô restringe-se à confecção de vestimentas para agasalho.

As flores de pano - uma das mais freqüente aplicações artesanais dos tecidos - vendem-se especialmente em maio, o mês das noivas. Cortadas as pétalas em organdi, seda, cetim, flanela ou morim, são a seguir tingidas em solução de anilina e álcool. É comum engomar o pano antes de corta-lo; se esse não for o processo, é usual mergulhar as pétalas em parafina derretida, após o que entram em ação os golfadores ou boleadores - ferros especiais de frisar. Com ele as floristas encrespam as pétalas de pano, dando-lhes o aspecto desejado. Os golfadores e boleadores são aplicados depois de previamente aquecidos em lamparina de álcool. Os arames, muito finos, completam a obra, estabelecendo as hastes e os pistilos das flores. As folhas, cortadas em oleado ou papel cetim, são a seguir coladas às hastes.

No Espírito Santo há significativa produção de flores com outros materiais, entre eles a palha de milho, os plásticos procedentes de garrafas, o isopor aproveitado de embalagens para ovos e, principalmente, papel de cores vistosas.

Com retalhos de pano, preferentemente de algodão, são produzidos tapetes e colchas. A forração das peças ;e feita com estopa de sacos de ração para animais. Os retalhos formam reticulado regular, onde a diversidade de cores é a regra. Em algumas peças, obtém-se desenhos, a partir do recorte dos retalhos

Com pano, fazem-se ainda brinquedos, como as tradicionais bonecas de pano; além disso, petecas, fantoches para teatrinho e figuras de animais. As bonecas são recheadas com retalhos, paina ou algodão e caprichosamente vestidas; à guisa de cabelo utiliza-se freqüentemente linha. Bandeiras e estandartes para congregações religiosas, blocos carnavalesco e folguedos populares incluem-se mais raramente na produção artesanal com retalhos de pano.

Sob a rubrica 'rendas, bordados e congêneres ' forma agrupados vários tipos de trabalho feminino: renda de bilros, flores, bonecos, colchas de retalho, crochê e bordados de agulha. O item constitui o mais expressivo do estado, reunindo 575 artesãos que representam aproximadamente 36% do total cadastrado. Foram registrados cinco artesãos do sexo masculino. Na faixa etária acima de sessenta anos situam-se 23% das artesãs. A residência é predominantemente na zona urbana - cerca de 75%. Para a maioria ( 384 artesãos ), o aprendizado se deu pela observação do trabalho. Do total, 211 receberam as técnicas de pais e demais parentes. É grande a maioria que trabalha sem auxiliares ( cerca de 90%, ). Apenas 11% mantém a família com o trabalho artesanal.

A produção é vendida na própria localidade, na maioria dos casos ( 486 ) , e na própria residência em 472 casos. O mês de dezembro é a ocasião de maior venda dos produtos. Há concentração de artesãs em Vitória, Serra, Vila Velha e Afonso Cláudio.


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