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São três os níveis de preparo observados no trato do couro utilizado pôr seleiros e correeiros. O processo para torná-lo utilizável pode reduzir-se a simples raspagem ( feita com caco de vidro ou faca, praticada sobre o material molhado e depilado. Cortado a seguir, suas tiras são amaciadas com cera ou sebo, e trançadas para produção de laços, rédeas e cabrestos, cabeçadas para arreios ou chicotes ( açoiteiras, talos e tacas ).

Também bastante rudimentar é o processo de salga, que consiste em mergulhar o couro em salmoura pôr dias e depois estirá-lo sobre lajes ou pendurá-lo em tronco de árvore, mantendo-o firmemente desdobrado pôr meio de varas. A curtição, processo mais evoluído, no qual se empregam substâncias ricas em tanino, tem como produto o couro geralmente chamado 'sola', no qual são cortadas as selas e todos os tipos de arreatas para animais. A sola recebe polimento com cera, verniz e escovas, e depois é cortada, aplicando-se sobre ela moldes de papelão. Com sola fazem-se também as bainhas para facões.

Além do couro de boi, é utilizado no estado o de búfalo ( município de Pancas ) e peles de cabrito e de porco, em vários outros. Os sapateiros trabalham com material variado. Além do couro cru e da sola, empregam o pneu, na criação de sandálias e chinelos, e diversas espécies de couros industrializados e sucedâneos de couro ( pelica, napa, curvim, cromo ) , na fabricação de sapatos e botas. Igualmente diversificada é a matéria-prima do artesão que produz utilidades e adornos: almofadas, bolsas, molduras para espelhos, sacolas, cintos, carteiras.

Enquanto as selas normalmente mantêm a cor da sola, apenas polida e brunida com cera, vernizes e escovas, os adornos e utilidades podem apresentar-se pirogravados e pintados. A ornamentação das selas é feita com os ferros de rebaixo - também chamados de bordar. São espécies de carimbos, trazendo desenhos em relevo. Tais desenhos são gravados, quando o ferro de rebaixo é fortemente batido, sobre o couro, com martelo ou malho. Os arreios trabalhados em cores vivas nem pôr pôr isso dispensam a operação do rebaixo - acabamento tradicional e apreciado.

Os seleiros utilizam canivetes, facas, alicates, agulhas e sovelas nos arremates de seu trabalho. Com furadores e vazadores completam e embelezam os 'bordados' obtidos com o ferros rebaixo. Os dois primeiros instrumentos servem também para acamar o capim usado para estofar as selas. As costuras são feitas com fio urso - barbante forte, também usado para tecer redes de pesca - ou com cordão de sapateiro, fio especial para costuras em couro. Estas podem ser feitas a mão, ou com máquina de ponteiro. De costura especial.

Para atender aos tropeiros, os seleiros e correeiros produzem cangalhas, bornais e capangas. Outros tipos de arreatas - para carroças e charretes - são igualmente produto de trabalho artesanal, bem como malas, e todas as peças do arreios para montaria - peitorais, rabichos, estribos de couro e talabardas.

O artesanal em couro vende-se melhor, no Espírito Santo, na época da colheita do café ou do milho, quando cresce o poder aquisitivo dos consumidores. Mas os tempo das férias e de exposições agropecuárias também fazem crescer a procura. Os meses de chuva, estragando o material dos vaqueiros e forçando a procura, são um fator de crescimento para as vendas.

O trabalho em couro realmente profissional é dos seleiros e sapateiros. O couro cru utilizado nas tranças das quais se originam rédeas, cabeçadas, cabrestos e laços é trabalhado pêlos próprios vaqueiros e lavradores, para seu gasto ou para atender à vizinhança. No caso das rédeas, aliás, o couro pode ser substituído, e o é freqüentemente pela crina de cavalo, engenhosamente trançada.

O aprendizado dos seleiros se faz em nível familiar ou através de mestres, em suas tendas de trabalho. Bom número, contudo, aprendeu a trabalhar desfazendo peças prontas para entender como eram concebidas e assim apreender os segredos do ofício.

Diversos instrumentos musicais - tambores de jongo e de bandas de Congo, pandeiros e tamborins - reclamam a presença do couro. Sumariamente curtido, é empregado bem estirado, de modo a garantir sonoridade à percussão. Os artesãos que trabalham com couro e peles representam 7,56% sobre o total cadastrado no estado.

Apenas 3 mulheres se ocupam com esse gênero de artesanato. E entre os homens a maioria inscreve-se na faixa etária acima dos 40 anos. Não foram encontrados jovens até 19 anos exercendo esse gênero de trabalho.

A zona urbana congrega a maioria dos cadastrados. Observar o trabalho dos artesãos foi a forma de aprendizado da maior parte ( 40% ). Muitos entretanto, ajudaram outros artesãos, enquanto aprendiam; outros meios, entre eles desmanchar peças prontas para ver como eram feitas, foram também registrados. Há predominância do aprendizado autônomo, no setor do artesanato de couro e peles. A maioria ( 95 artesãos ) trabalham individualmente. Pouco mais da metade dos artesãos mantém sua família com a venda do produto artesanal.

São poucos os artesãos que levam seus produtos para vender fora das cidades em que vivem; a maioria vende na própria residência. Junho e dezembro oferecem melhores oportunidades de venda aos artesãos do couro. A produção artesanal do couro distribui-se praticamente pôr todo o estado, destacando-se Cachoeiro de Itapemirim e Nova Venécia.


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