
Muito numerosos são as espécies vegetais úteis ao artesão capixaba. São utilizados milho e bananeira, entre as cultivadas; deles se usa a palha, na confecção de bolsas, sacolas e flores.
As demais fibras são recolhidas na flora local. Das mais empregadas é a tábua (chamada geralmente de taboa) Que vive nos brejos. É utilizada para a produção de esteiras, assim como o piri, ou piripiri, espécie de junco, também nativo dos brejos. Do ubá, igualmente espécie que cresce em terra úmida, sendo conhecido também como cana-brava e cana-do-brejo, aproveitam-se as folhas, para cestaria e tapetes, e as 'flechas' para gaiolas.
Entre os coqueiros, é de grande emprego o arizeiro, de denominações diversas: iri, airi, irirí, brejaúva e buri-do-campo. Outras palmeiras, como o palmito, a píndoba, a Jussara e o tucum fornecem a matéria-prima, seja pela fibra - Jussara e tucum - seja pelas folhas, utilizadas em trançados e na confecção de vassouras.
Palhas diversas - hastes secas de gramíneas - entre elas grande variedades de capins, e a palha de uruba ( planta da família das marantáceas ) têm utilizações bastantes variadas: servem à produção de vassouras e de peneiras, cestos e colchões' a empalhação de cadeiras e forração de garrafas. Com a palha de capim ou palha de bananeira também se estofam as almofadas das rendeiras.
Os cipós apresentam-se ao artesão sob muitas espécies: o cipó-preto e o cipó-chiador, o timbó ( este bastante lenhoso ), a macambira, nascida em terra seca e pedregosa, o cipó-tatu e o jequitá são, juntamente com o imbé, delicadíssima raiz dos filodendros, as espécies mais correntes. Fazendo as vezes de cipó, a pindaíba, corda urdida com fibra de coco, também é empregada para produzir cestos, chapéus e vassouras tem como matéria-prima os cipós mais flexíveis.
Em Vila Velha, aconselha-se colher cipó entre janeiro e agosto; "nos outros meses ele está fraco, porque as árvores estão em reprodução".
De qualquer forma , é sabido que toda fibra vegetal deve ser colhida na lua nova ou minguante. O preparo do cipó consiste, basicamente, em seca-lo ao sol. As espécies de maior espessura são, a seguir, cortadas ao meio. A raspagem da casca não é obrigatória, como na taquara, em que se usa faca, depois de lascada, para extração de sua parte interna, o 'miolo'.
O trançado do cipó ou qualquer outra fibra obedece a um só processo: a base é formada pôr duas talas cruzadas, firmadas pelo esteio, peça que atravessa verticalmente as duas primeiras. As demais tiras do trançado vão sendo, então, incluídas no tamanho e na quantidade desejadas.
Na confecção das peneiras utiliza-se madeira, além das fibras, destinadas a fazer o arco, a madeira deve ser flexível: folha-da-serra, garapa, palmeira aricanga e outras. Raspada e aquecida, para melhor vergar, é depois unida ao trançado da peneira pôr meio de embiras, sendo as de guaxuma e embaúba as preferidas - ou arames e cordas, muitas vezes obtidas da piteira. Para conseguir a fibra desta planta as folhas são maceradas. A mesma fibra é utilizada em laços, barrigueiras, cabrestos e baixeiros, complementos dos arreios de montarias. Para essas peças a fibra é, geralmente, tingida.
O trançado das peneiras apresenta peculiaridades que são determinadas pôr sua utilização: o trançado mais fino destina-se às peneiras onde será 'abanado' o arroz; o de malha mais larga emprega-se para operação idêntica com o feijão ou o café. A palha uruba e a palha de ubá, além da taquara, são matéria-prima específica das peneiras.
São várias as denominações vulgares de taquara, também conhecida como taboca, tais como taquara-manteiga, a mais fina e flexível; taquara-lixa, a mais comum; taquaruçu, a de maior diâmetro. O bambu, freqüentemente chamado tiá, tem uso semelhante ao das taquaras: como ambos criam-se cestos, balaios, saburás, esteiras para carro de boi, armadilhas para caça e pesca, especialmente os jequiás, chamado também jiquis ou juquiás, e os rabudos, usados em rios e riachos, além de jacas e quicambas - balaios para a colheita de milho. Nos cestos e balaios, a utilização condiciona o trançado: é mais fechado para a colheita de grãos. De múltiplas utilidades, os cestos guardam ovos, pão, roupa suja ou objetos pertencentes às crianças de colo. Os próprios bebês podem ser mantidos em cestos grandes, trançados em taquara ou em cipó. As galinhas são postas no choco em balaios. A produção de cestos e balaios está disseminada em todo o estado, cabendo referir as influências teutônicas, negras e indígenas.
A flecha-de-ubá, a taquara e o bambu, além dos talos partidos de embaúba e da palmeira Jussara, são o material preferido para fazer gaiolas. Tratado o material pela simples raspagem, o gaioleiro emprega furadores, alicates e compassos improvisados.
Na confecção de chapéus, além de cipó, pode-se usar a palha do coqueiro airi ou brejaúva, como matéria-prima. Podem ser tecidos sem costuras - da copa às abas em uma só peça - ou produzidos a partir da costura de tranças do material, pacientemente superpostas. Também nas vassouras - para varrer, vasculhar a casa ou limpar fornos - aproveitam-se, além de cipó, a palha do guriri, do airi, do palmito ou do capim colonião, atada firmemente em volta da vara.
Destinação especial em tipiti, também chamado tapiti: feito com palha de ubá ou folha de diversas palmeiras, ele faz parte do processo doméstico da produção de farinha, servindo para enxugar a massa, ou seja, prensar a mandioca.
Com grande expressão na produção artesanal à base de fibras aparecem as esteiras, quase sempre feitas de tábua. É uma planta de brejo e deve ser deixada a secar, antes de ser trabalhada. Geralmente o caule da tabua é usado inteiro, nas esteiras. Os esteireiros trabalham com um tear, armação de madeira formada pôr dois esteios verticais e um horizontal, superior, chamado 'quadra de tear' ou 'estandarte'. A ele se prendem os 'cambitos', as peças de madeira nas quais se enrola a meada de cordão, fibra obtida da própria tabua ou embira, para possibilitar a amarração lateral, fixando-se as hastes, umas às outras, dando continuidade à esteira. É freqüente chamar-se bilros aos cambitos.
É pequena a produção de redes de dormir com fibras vegetais. A matéria-prima pode ser palha uruba, a iri, o tucum ( São Mateus ), também usado nas redes de pesca. As redes de dormir se apresentam mais freqüentemente tecidas e cordas e cordões, barbante ou fio urso - fio de algodão industrializado.
A pesca é atividade que consome boa porção da produção artesanal em fibras vegetais. Mas ;e na lavoura que a cestaria tem larga utilização, em época da colheita do café, mandioca e arroz ( Ecoporanga ), abacaxi (Serra) e milho ( diversos municípios ).
As festas típicas do mês de junho ampliam a venda de esteiras. Os chapéus são procurados o ano todo, especialmente em junho e no Carnaval; as peneiras, em época da apanha do café. As gaiolas são mais procuradas nos meses de verão quando aumenta a caça de pássaros.
Os artesãos que trabalham com fibras representam cerca de 30% do total cadastrado. Desse total, 80% é constituído de homens. A maioria dos artesãos tem mais de 40 anos. Quanto ao local de residência, os artesãos distribuem-se igualmente pelas zonas urbana e rural. Mais de 50% do total cadastrado obtêm gratuitamente, da flora local, a matéria-prima de seus cestos e trançados. Contudo, a apanha do material verifica-se longe de casa para mais da metade deles: apenas 42% ainda tem próximo da residência aquilo de que necessitam para produzir.
Olhar outro artesão trabalhando foi a maneira de adquirir a técnica artesanal adotada pôr cerca de 60%, seguindo-se, como forma de aprendizado, ajudar na execução do trabalho. Embora a maioria 9 180 artesão ) declare Ter aprendido a trabalhar sozinho, persiste a tradição de família: 127 aprenderam com os pais a trançar fibras e trabalhá-las. O trabalho individual é predominante, registrando 333 artesãos, no total de 432.
Apenas uma pequena parcela mantém a família com a venda do produto artesanal, enquanto a maioria ( 268 homens e 62 mulheres ) precisa ocupar-se em profissões diversas para sua manutenção. 351 artesãos comercializam seu produto na localidade de produção; 60 deles deslocam-se para outras cidades. A maioria vende suas peças na própria residência. Fevereiro, janeiro e dezembro são os meses de maior procura para os produtos de fibras e trançados. São Mateus registra a maior concentração de artesãos desta modalidade, seguindo-se Afonso Cláudio e Cachoeiro de Itapemirim.