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Palhaço de Folias de Reis - Muqui-ES/2008
CULTURA POPULAR NO ES: UM BREVE PERFIL HISTÓRICO[1]
A nossa cultura popular, evidentemente, está fortemente vincada pelas etnias que nos conformaram ao longo do processo de formação histórica do Espírito Santo. Contudo, vamos ver que mesmo elementos culturais de povos e culturas não fisicamente presentes na formação histórica capixaba e brasileira, como o islamismo árabe e os mouros, os ciganos e mesmo o judaísmo hebraico, também nos marcaram por intermédios das influências que legaram a estas etnias que nos formaram.
A primeira etnia que as outras tradições irão encontrar e com ela se miscigenar é a indígena, cuja influencia na formação brasileira, infelizmente a sociedade ainda despreza, queima e desconhece. Quase exterminados, parte significativa de nossos índios sobrevivem apartados da sociedade, na condição de índios genéricos, influenciados pelo costumes ocidentais modernos, no meio do qual sobrevivem elementos da sua cultura primeva. Mesmo assim são inúmeros os valores, os hábitos, os costumes, as crenças, as artes e os meios de vida, que miscigenados racial e culturalmente persistem no nosso povo. A cultura indígena é a base formadora da nacionalidade brasileira.
Devemos lembrar que quase todo o primeiro século da colonização se deu, tendo como matéria prima, mão de obra, meio fabril e de vida a cultura indígena. O branco português comia a comida dos índios, usava os seus utensílios domésticos e fabris, chamava as coisas pelos seus nomes, seguia os seus passos, para assim ir aos poucos conhecendo e dominando a nova conquista. No esforço de falar o tupi criam o nheengatu que será a língua geral da colonização nos núcleos missionários e aldeias.
O contato do branco europeu, com o silvícola, se deu de maneira brutal, como faziam os bandeirantes e colonos que se dedicavam a caçar, explorar, escravizar e comercializar o índio; ou de modo sutil e ardiloso, como procediam os jesuítas, com seus métodos de catequese. Nas aldeias missionárias separavam as crianças dos pais e nas escolas jesuíticas, os catequizavam na cultura ocidental cristã judaica. Depois devolviam esses curumins ao seio das tribos indígenas para difundir a fé católica. Chegaram a importar menores infratores de Portugal para conviverem e influenciarem as crianças índias revelando uma prática sistemática de aculturação.
Via de mão dupla, também por meio destes contatos foram inúmeros os costumes que os nativos nos legaram e que podem ser comprovados na nossa vida contemporânea. Nos nossos hábitos higiênicos por exemplo, como o do banho diário, no costume de se usar enfeites, miçangas e adornos, na nossa postura e forma de amamentar e cuidar da criança, na nossa culinária como a moqueca e outros pescados e caça e toda gastronomia que varia do milho e mandioca, na nossa língua e toponímia que são os nomes indígenas que ainda hoje dão as referencias nas nossas cidades, como em nossos utensílios artesanais de lazer, como a rede de dormir, de se enfeitar, como colares e pulseiras, de comer como a panela de barro, na nossa fitoterapia popular com sua ervas e plantas medicinais, chás, infusões, emplastros, rescaldos e no nosso imaginário religioso, mágico, popular com ícones representativos de valores sociais e espirituais, como o curupira, defensor das matas, a Yara, mãe d’água, protetora dos rios e cachoeiras, o boitata e a cobra grande, vingadoras da floresta e entidades como os caboclos pena verde, preto velho, sete flechas, tabajara, entre outros da umbanda.
O segundo elemento étnico por datação histórica a nos conformar a cultura popular capixaba é o branco europeu português, cujos elementos étnicos culturais são inúmeros e facilmente reconhecíveis na nossa vida atual. Apesar da destruição do habitante primevo a que se submeteram é preciso registrar que os portugueses, não se abstinham de se misturar e miscigenar com os povos das regiões que “descobriam” e a seguir conquistavam e dominavam. País pequeno de população diminuta, Portugal não podia movimentar inúmeros e poderosos exércitos para ocupar o seu vasto domínio marítimo. Assim, conforme demonstrou Gilberto Freire, o intercurso sexual com os povos dominados se constituíam numa necessidade estratégica de sobrevivência, ocupação e expansão das novas possessões. O mesmo podemos ver, por exemplo, em Macau na China onde encontramos uma população de características raciais predominantemente asiática que falam português e tem os mesmos sobrenomes portugueses presentes no Brasil, como Oliveira, Pereira, Madureira, Silva, Fagundes, ...
Tanto por meio destas relações de compadrio estabelecidas pelo intercurso sexual, que Darci Ribeiro denomina de cunhadismo, para a qual a cultura do índio contribui ao determinar uma linha de parentesco apenas a partir da família do homem e por não cultivar valores morais como poligamia, concubinato e relações sexuais entre parentes, por exemplo; como por meio das inúmeras missões indígenas, muito expressivas no Espírito Santo, os costumes portugueses vão se afirmando na formação deste novo ser. A forma mais cristalina dessa influência que a gente pode apontar, além da língua e o valores morais que ela nos traz, é o catolicismo popular santeiro do brasileiro e suas festas. Quer seja de passagem como o batismo, casamento, natal e ano novo, quer seja as de santos como São Sebastião, São Benedito, Nossa Senhora, São Pedro, Santo Antônio, São João, ... incluindo todo o repertório delas como seus folguedos, folias de reis, do divino, fincadas de mastros, pau de fitas, seus rituais de pular fogueira, de soltar fogos, de rezas e ladainhas, suas danças de roda, de quadrilha, sua culinária de doces, vinhos e pratos do mar, entre tantos outros elementos.
A relação do índio com o branco português no Espírito Santo é de certa forma, diferente da visão costumeira difundida pela historiografia nacional para a qual os portugueses vão rapidamente estabelecer uma indústria extrativa de índios, as famosas Entradas e Bandeiras que, principalmente de São Paulo, vão alargar as fronteiras do país. No Espírito Santo os índios se constituirão em barreira quase intransponível para interiorização da capitania. Primeiro pelo combate ferrenho ao invasor branco como atestam a passagem da Vila Velha no continente para a Vila Nova na ilha (Vitória), bem como as dificuldades de colonização do norte do estado que devido aos Botocudos até meados do século XX ainda era apontada nos mapas como terra desconhecida. Segundo, pela presença de Anchieta e a experiência catequética realizada pelos jesuítas, que competiam com os colonos e fazendeiros a posse dos índios.
É paradoxal que Anchieta, um jesuíta, tenha fundado São Paulo, terra por excelência das principais entradas e bandeiras dos mascates e fazendeiros coronéis portugueses dedicados à captura e extermínio dos índios. Enquanto para os Jesuítas estes, eram criaturas de Deus e deviam ser convertidos, catequizados e nas missões trabalharem pela colonização e cristianização do território, para os colonos eles não passavam de caça para fornecimento de mão de obra escrava. Assim, no Espírito Santo o primeiro século registra na sua maioria aldeias jesuíticas, contra poucos núcleos de fazendas voltadas a captura de índios e seu comércio. As aldeias e domínios em Reritiba, Nova Almeida, no planalto serrano, em Santa Cruz, em Guarapari, no vale do Moxuara em Cariacica, em Vitória onde tinham escolas na ilha de Duarte Lemos, vão formar um cinturão de missões que vai impedir a exploração da capitania nos moldes dos mascates de índios.
Embora já tivessem os portugueses escravos negros em Lisboa, é a partir de fins do século XVI, início dos 1600 que sobre este legado sócio cultural centralizado e tirano que se desenvolve a quase 100 anos, que o terceiro elemento étnico o negro vem massivamente, na condição humilhante e desumana de escravo.
Trazidos em grandes levas principalmente ao porto de São Mateus, dali, vão ocupar as fazendas no Vale do Cricaré, se estendendo ao sul para as terras do Barão do Timbuí, ao interior para as serras do Barão de Aimorés e ao norte para as fazendas da Bahia, até próximos à região de Porto Seguro, cuja capitania também recebia navios mercantes de almas humanas. Esta corrente migratória negra, segundo Artur Ramos, são dos negros de origem Bantu, do complexo exportador que se estendia ao longo do rio Congo, envolvendo regiões como Angola e Moçambique. Não por acaso, no Brasil, onde os negros desta corrente migratória se fixaram como Espírito Santo e Minas, são locais onde encontramos a manifestação folclórica do congado, denunciando a matriz afro das nossas Bandas de Congos.
Mesmo modelados pela igreja católica, neste folguedo como também nos jongos, caxambus, caboclinhos, bate flechas, e em manifestações de fé como a Nossa Senhora, a Iemanjá, São Jorge, Oxum, Iansã, Santa Bárbara, Oxóssi, Cosme e Damião, realizada por meio de seitas como o candomblé e a macumba, os negros nos legaram um enorme universo mágico e cultural. Que se expressa também nas nossas crendices e superstições, na culinária, com seus beijus, acarajés, cuscuz, vatapás, chinchins, no artesanato e no jeito diferente de falar o português, ensinado pelo capataz aos berros ou sussurrado nas senzalas, pelos descendentes de índios e negros ladinos.
Tendo que aprender o português para dialogar com o senhor e com outros negros escravos ao lado dele, geralmente de outra etnia, cultura e língua, o escravo vai contribuir para que a língua portuguesa supere a língua geral do nheengatu.
É importante destacar que a matriz negra em muitas regiões se miscigenando absorveram e deram continuidade a vários aspectos culturais dos índios. No artesanato, como atestam as Panelas de Barro de Goiabeiras ES, onde uma técnica tradicional indígena pré cabralina, ainda é praticada por uma comunidade racialmente miscigenada de negros e índios, como também no aproveitamento culinário da tapioca, do milho, do peixe em pratos de memórias palatáveis africanas.
É muito comum no Brasil locais aonde os índios desapareceram fisicamente, mas a sua cultura continua reproduzida pelo negro que com ele aprendeu. Esta relação, acho, foi de fundamental importância para o surgimento de movimentos de insurreição como os quilombos. Se tinham os negros a organização social que o índio não tinha para preparar um levante e fuga e depois uma vida comunitária protegida, era o índio que conhecia a região e o local, os caminhos, os rios, os alimentos, os remédios, as fontes de matérias primas, os nichos ambientais onde este núcleo poderia sobreviver e onde o homem branco não chegaria. O negro boçal, recém chegado, não conhecia sequer a língua dos outros escravos que vinham com ele, quanto mais o terreno e o negro ladino, nascido na terra, miscigenado ou não, crescia no litoral e tinha o movimento podado pelo regime escravocrata.
É nesse contato do negro com o índio que se juntam os elementos necessários para o a formação dos quilombolas. Uma relação natural consumada pelo fato comum de serem escravos, de serem a reduzidos a objetos, a ninguém, de terem um inimigo comum e de, principalmente, terem elementos culturais identificáveis como a evocação das coisas da natureza chamadas com os nomes santos de sua línguas ancestrais, como o canto para aliviar a tristeza e a dor acompanhados de instrumentos como o tambor, o reco - reco, o chocalho, por eles conhecidos.
O negro evidentemente não trouxe o tambor da África. Às vezes romantizam a escravidão e acham que o negro veio de mudança trazendo os seus pertences, como instrumentos, artefatos, roupas, plantas, etc. Esquecem que o negro veio apenas com o seu corpo e a sua poderosa memória cultural que ele, sobre as condições mais inumanas da história, reconstrói, com os elementos que ele vai encontrar nesta nova terra.
Em relação ao legado negro cabe esclarecer, embora pareça desnecessário que a feijoada não é uma comida africana, no sentido de um prato feito à memória da África, como por vezes lemos na imprensa ou declara um intelectual. É um prato da nossa culinária fruto do processo escravocrata. Consistia em misturar ao feijão, como uma lavagem, o focinho, as patas, o rabo, as orelhas, as vísceras, as partes do porco que não eram apreciadas pelo senhor e que seriam jogadas fora, para alimentar os negros. Tacha-la de origem afro é adoçar o fel da escravidão e mascara-lo.
É a esta célula tupi-luso-afro, comum a todo o Brasil, com diferenças ditadas a partir dos índios locais e da corrente migratória negra, que no Espírito Santo já então no Século XIX, irão aportar os povos europeus, principalmente italianos e alemães, que trarão seus elementos e valores culturais, contribuindo para o contorno diferenciado da identidade capixaba. Vão misturar a este caldeirão mesológico de influências tupis, portuguesas e bantos, os doces, biscoitos, queijos e polenta, recriada sobre o fubá do milho indígena, as técnicas de ocupação, trato e destrato da terra, como as queimadas semelhante às coivaras dos guaranis, as bebidas como vinhos e aguardentes, os utensílios de trabalho e da cozinha, as formas de organização social baseadas no trabalho familiar da terra e as festas de passagem, do calendário de colheitas e dos santos padroeiros.
No Espírito Santo os italianos, alemães e outros povos como pomeranos, luxemburgueses, polacos, holandeses tiroleses, não vieram, ocupar o lugar da mão de obra negra nas fazendas de café. Diferente, principalmente de São Paulo que moldou este conceito historiográfico clássico. Aqui este fenômeno só se reproduziu na região dos cafezais do sul do Estado. Estes povos em sua maioria vieram habitar regiões ocupadas por índios e impenetráveis pelas dificuldades impostas pelo meio. Nas montanhas e norte do Estado, vão para desbravar terras, matas virgens e criar colônias. Desta forma vão estabelecer um processo de isolamento que vão preservar um grande acervo de sua cultura tradicional.
Mas não vão ficar infensos a mudanças. Os italianos vão absorver parte da imensa cultura de ervas e procedimentos fitoterápicos indígenas bem como a nomenclatura desta botânica. É muito comum que uma “nona” italiana identifique em seu jardim uma sem número de ervas e plantas para tempero ou para preparar um bom chá para resfriados, dor, pressão alta, para o sangue, atraso menstrual, ...
Ao lado das correntes migratórias principais que são a italiana e a Alemã com destaque para os Pomeranos, vamos ter em menor número a migração de outros povos europeus, como os austríacos, pomeranos, holandeses, luxemburgueses, polacos e orientais, como os turcos, sírios e libaneses. Nas últimas décadas na Grande Vitória, principalmente a partir dos anos 70, vamos ter a chegada de japoneses e coreanos atraídos pelas empresas internacionais que aqui se instalam.
São estas influências culturais que nos moldam e identificam, constituindo se a usa resultante na nossa identidade capixaba. Estas manifestações de nossa cultura popular vão ser estudadas sistematicamente a partir dos 40, com a iniciativa de mestre Guilherme Santos Neves que em 1947 vai criar a Academia de Estudos Folclóricos no Instituto Histórico e Geográfico e em 1948 a Comissão Espírito-santense de Folclore, uma das primeiras a se filiarem à Comissão Nacional de Folclore e à UNESCO, que passavam desde então a ditar as políticas e orientar os pesquisadores no trabalho que deveria ser realizado em torno da cultura popular.
Esse arcabouço todo de conhecimento acumulado da cultura popular, pela sua natureza oral democrática e criativa está hoje depositada numa geração de pessoas de uma faixa etária de 60 à 90 anos de idade. Se essas pessoas morrem sem passar suas informações para os filhos e uma vez que não estão em sua maioria registradas, entraremos no terceiro milênio com a vergonha de perder, para sempre, uma cultura de valores incalculáveis.
Apesar de o pedido de Amadeu Amaral e Mário de Andrade de se fazer um mapeamento do folclore brasileiro seja de 1925 até hoje o Brasil ainda não o realizou. E como material da cultura popular absolutamente intangível e precária, que é a vida, é urgente o estabelecimento de ações institucionais de preservação e estímulo a continuidade da manifestação e o seu acompanhamento, registro, análise, sistematização e exposição pública de pesquisas, visando à formação de um grande acervo.
Esse é o caminho que tem seguido a Comissão Espírito-santense de Folclore ao buscar realizar o projeto de Mapeamento do Folclore Capixaba, um banco de dados vivos do folclore capixaba.
O Espírito Santo é dos únicos dos Estados brasileiros que não tem museu do folclore, e o tema não entra na rede escolar de primeiro e segundo grau. Muito precariamente tem a disciplina de folclore tanto nas faculdades privadas, - nos cursos de Educação Física, raramente nos de Turismo -, como na Universidade Federal onde há a disciplina apenas no Curso de Artes, não sendo abordado nem no Curso de História. Enfim temos um enorme atraso institucional de políticas para serem implementadas na valorização e preservação do folclore.
Este banco de dados resulta em ações fundamentais para a cultura, o turismo, a educação, a mídia, a política, a economia, a construção de caminhos próprios, a auto estima e para a identidade capixaba. Principalmente para o estabelecimento de um mercado cultural capixaba, que transiste e negocie valores próprios, nos tirando da condição de apêndice dos símbolos culturais cariocas e baianos sem condições de estabelecer uma face própria ao mercado e à informação.
Nesta perspectiva à no Espírito Santo uma falta de definição das políticas publicas de cultura. As ações não tem rumo definido. Não há projetos que expressem valores, concepções e idéias do mundo para o Estado. Na sua maioria as instancias de administração cultural são só escritórios de articulação de projetos de interesses sociais ou não.
Precisamos de uma política clara para o folclore, teatro, cinema, música, artes plásticas, literatura que seja entendida pelo mundo da cultura e formulado a partir dele e de seus agentes. Que preveja mecanismos institucionais de incentivo e de inter. relação com os mundos do turismo, da economia, da educação, da informação, e que impulsionem, os projetos que a cultura capixaba precisa.
[1] Exposição proferida por Eliomar Carlos Mazoco no Painel da História Capixaba, realizado pela Secretaria de Cultura do Estado do E. Santo, 2001