60 ANOS DA COMISSÃO ESPÍRITO-SANTENSE DE FOLCLORE
No dia 23 de maio de 2008, a Comissão Espírito-santense de Folclore completou 60 anos de sua fundação e a atual diretoria vêm fazendo um balanço das atividades desenvolvidas ao longo deste meio século.
O primeiro esforço orgânico no sentido de impulsionar os estudos sobre o folclore no Estado foi a criação, em 1946 pelo Mestre Guilherme Santos Neves, da Academia Capixaba de Folclore no interior da Academia Espírito-Santense de Letras. Portanto precedendo a criação da própria Comissão Nacional de Folclore - como cita Luiz Rodolfo Vilhena em " Projeto e Missão - o movimento folclórico brasileiro 1947 - 1964" - que só ocorreria, em dezembro de 1947 sob a liderança de Renato Almeida, e cujos objetivos eram coordenar os esforços de pesquisa e proteção do folclore brasileiro, com a intenção de criar nos Estados, Sub-Comissões que integrariam a Instituição Nacional.
A junção dos esforços locais e nacionais levou à criação em 1948 da Sub-Comissão Espírito-Santense de Folclore, tendo como secretário-geral o mestre Guilherme Santos Neves e contando com a participação de intelectuais como: Dr. Eurípedes Queiros do Valle, Dr. Cristiano Fraga, Dr. Nelson Abel de Almeida, Professora Maria Stella de Novaes, Dr. Renato José da Costa Pacheco, entre muitos outros colaboradores ilustres.
No início dos trabalhos na década de 50, as pesquisas realizadas, segundo relatos contidos na revista "Folclore" dos Nº. 1 a Nº. 95, com algumas excessões, voltaram-se para o registro das festas populares como as do Alardo, Ticumbi e Reis de Bois em Conceição da Barra, nos anos de 1949, 50, 51, 55 e 58 e as festas de "Puxada de Mastro" na Serra em 49, 50, 53 e 57, em Goiabeiras em 1952, Manguinhos e Pitanga em 1953, Jacaraípe em 1954 e Nova Almeida em 1958.
Em Marataízes os pesquisadores da Comissão registraram a Festa das Canoas em 1952 e 53 e em Muquí o concurso de Folias de Reis em 1955, 56 e 57. O Jongo do mestre Zacarias em Cachoeiro de Itapemirim em 1956 e em São Mateus, o Tambor de São Benedito em 1959.
Em 08 de setembro de 1958 foi realizada na Capital um Desfile Folclórico em comemoração ao IVº Centenário da chegada de Frei Pedro Palácio, com a participação de Bandas de Congo, dos Cabocleiros de Mantenópolis, do Alardo de Conceição da Barra, sendo realizada ainda uma romaria ao Convento da Penha.
Em 1951 foi realizado o 1º. Concurso Estadual de Bandas de Congo com a participação de 17 bandas de Vila Velha, Vitória, Serra, Cariacica, Aracruz, Santa Leopoldina, que teve como vencedora a Banda de Congo de São Benedito de Boa Vista, de Cariacica.
Nos anos 50 foram realizadas conferências de Manuel Diégues Júnior em 1949 e 53, Renato Almeida em 1951 e de Luiz da Câmara Cascudo em 1953, ano que foi instalada a seção de folclore no Museu Capixaba. A Comisão enviou ainda delegações que participaram de Congressos Nacionais no Rio em 1951, Curitiba em 1953 e Salvador em 1957. Também participou da IVº Semana Nacional de Folclore em Maceió em 1952 e do Congresso Internacional do Folclore em São Paulo, em 1954, onde se apresentou o Ticumbi, representando o folclore capixaba.
O Ensino de Folclore foi criado nos Colégios do Carmo e Americano de Vitória em 1952 para formação de professores e a Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras do Espírito Santo foi a primeira do país a incluir o folclore como disciplina nos cursos de Geografia e História em 1954.
Nos anos 60 as pesquisas mantiveram o mesmo vigor, sendo registrados o Jongo do mestre Pedro Celestino Jerônimo e do Mestre Antônio Mendes Jerônimo em Guaçui em 1966, a Festa de São Benedito na Serra em (1963), pesquisas de costumes Teuto-brasileiros em 1965, nas comunidades de Recreio, Santa Maria de Jetibá, Suíça, Campinho, Parajú e Santa Izabel. E a festa de Iemanjá realizada na praia de Itapuã em Vila Velha, pela fraternidade Tabajara em 1967.
Em 1964 foi criada a Comissão Mateense do Folclore e em 1966 inaugurado o Museu do Folclore do Espírito Santo com a realização de cursos de Folclore em 1966 e 1967, numa parceria da Comissão e da UFES.
Foram enviadas delegações para o Vº. Congresso Brasileiro de Folclore em 1963 e ao Congresso Internacional de Folclore em Buenos Aires. Ambos tiveram como Relator-Geral o Professor Guilherme Santos Neves.
A Comissão publicou nos anos 60 - 70 dez volumes dos Cadernos de Etnografia e Folclore como o Nº. 4: "Nau Catarineta" de Guilherme Santos Neves em 1969 e o Nº. 7: "Pequeno Cancioneiro Cachoeirense de Trovas Populares" de Miguel Depes Tallon em 1977.
Nos anos 70 destacamos a criação do Centro de Tradições Barrenses e exposição de peças folclóricas no hall do Ed. Fábio Ruschi em 1970. Em 1971 foi realizado um "Mutirão do Folclore" na semana do Folclore - FAFI com a apresentação do filme; "O Alardo". Em 1973, na semana do folclore foi lançado pelo EBCT, o Selo do Folclore, havendo também a realização de desfile de grupos folclóricos na UFES e concurso de fotografias e reportagem sobre Afonso Cláudio.
Em 1975 foram realizados eventos comemorativos do Centenário da Imigração Italiana no Espírito Santo na Semana de Folclore, onde foi realizado um Mutirão do Folclore e iniciaram-se pesquisas sobre o Folclore Italo-capixaba no Centro Rural de Treinamento e Ação Comunitária sob coordenação do Professor Guilherme Santos Neves.
A Comissão junto a FUNARTE, Comissão Nacional e a CDFB desenvolve seu trabalho mais completo e ambicioso que consistiu no Mapeamento das Manifestações Folclóricas de todo o Estado. Esse grande trabalho originou o "Atlas Folclórico do Espírito Santo" que retratou o perfil das manifestações existentes no Estado e sua distribuição territorial, sendo publicado em 1982.
Nos anos 80 foram realizados cursos de folclore e, pelos membros da atual diretoria, encontro de Bandas de Congo em 1984, 1988, e 1991, onde houve a participação de cerca de 30 Bandas de Congo de Vila Velha, Cariacica, Serra, Aracruz, Santa Leopoldina, no campus da UFES, onde se reuniram os grandes Mestres Capixabas para debater questões referentes a transformações e sobrevivência desse Folguedo Capixaba.
Destacamos a publicação da Revista "Folclore" órgão da Sub-Comissão Espírito-santense de Folclore, cujo nº. 1 foi publicado em julho-agosto de 1949 e sua última edição de nº. 95 em 1982. Essa revista registra as pesquisas da Comissão Capixaba e artigos de diversos folcloristas ilustres como: Renato Pacheco: "Sobre o Boi Jaraguá", Hermogênes Lima Fonseca: "Para Um Vocabulário de Pesca", Manuel Diégues Júnior: "História e Folclore do Nordeste", Florestan Fernandes: "Mário de Andrade e o Foclore Brasileiro", Renato Almeida: "Folclore, Ciência da Interpretação", Cecília Meireles: "Infância e Folclore - Eu vi uma Pastora" sobre uma cantiga de roda colhida de uma menina capixaba e do folclorista espanhol Antônio Castilho de Lucas "Concepto de La Fiesta a Través de La Sabidoria Popular" entre outros que colaboraram para seu sucesso.
Nos anos 90, a Comissão renova seus quadros de folcloristas. A diretoria presidida por Eliomar Carlos Mazzoco e que têm o Folclorista Hermógenes Lima Fonseca como Presidente de Honra, tem como meta principal reativar com fulgor e vitalidade a pesquisa e conhecimeto folclórico no Estado.
Guilherme Ramalho Manhães
Historiador e membro da Comissão Espírito-santense de Folclore.